Dar à luz

por Bráulio Bessa

Dar à luz a uma criança / é iluminar os seus dias

dividir suas tristezas / somar suas alegrias

é ser o próprio calor / naquelas noites mais frias

Dar à luz é estar perto / é sempre chegar primeiro

é ter o amor mais puro, mais honesto e verdadeiro

amar do primeiro olhar / até o olhar derradeiro

Dar à luz é se estressar / é não conseguir dormir

é ser quase odiado por dizer, não vai sair

Dar à luz é liberar, mas também é proibir

Dar à luz é ser herói com papel de vilão

é saber regrar o sim e nunca poupar o não

não é traçar o caminho é mostrar a direção

Dar à luz é ser presente nos momentos mais cruéis

é ensinar que os dedos valem mais do que os anéis

é mostrar que um só lar, vale mais que mil hotéis

Dar às luz é se doar é caminhar lado a lado

é a missão de cuidar, de amar e ser amado

é ser grato por um dia, também ter sido cuidado

é conhecer o amor maior que se pode amar

é a escola da vida que insiste em ensinar

que pra dar à luz a um filho não é preciso gerar

é entender que neste caso o sangue é indiferente

duvido o DNA dizer o que a gente sente

é gerar alguém na alma e não biologicamente

pois não tem biologia e nem lógica

para explicar o amor de pai e mãe

não se resume em gerar

quem gera nem sempre cuida, mas quem ama vai cuidar

vai cuidar independente da cor que a pele tem,

da genética, do sangue

o amor vai mais além

o amor tem tanto brilho

que quem adota um filho

é adotado também!

Escolhas

all star pai

Por Arno Duarte

Eu gostaria de ser o tipo de pai que quer que os filhos façam suas próprias escolhas, que sigam seus caminhos sem copiar os passos dos pais e tal. Mas a prática mostra que não é tão fácil ser assim.

Conviver com o Cadu e com a Vivi me faz saltitar de felicidade quando eles experimentam e gostam de algo que eu gosto, quando pedem pra assistir um episódio do Flash, quando querem vestir a camiseta do Batman, quando perguntam quando vamos no jogo do Inter?, quando se sentem bonitões por usar um casaco ou sapato parecido com os meus, quando dizem que querem morar na praia ou quando falam que é muito bom andar de bicicleta.

Sou o resultado das referências que tive de outras pessoas, pais, tios, amigos, primos, referências boas e outras nem tanto, e assim, percebo que minha responsabilidade na criação dos filhos é viver bem e me sentir feliz para ser um exemplo de pessoa que faz e aproveita a vida da melhor forma.

Quero mais é que eles façam suas próprias escolhas sim, mas também vejo que será inevitável os dois se espelharem nas pequenas coisas que gosto e, se quiserem me copiar só um pouquinho, vou ficar orgulhoso mesmo assim!

#papaipresente

Quando as flores não chegam

Nosso #tbt de grávidos, ainda em 2014, aguardando na fila da adoção, mas já pensando em como seria ser pai e mãe. Pai e mãe que geraram filhos no coração, o que parece não gerar a mesma mobilização nas pessoas como quando nasce um filho da barriga.

É fato: quando um filho adotivo nasce, não chegam flores, ninguém traz roupinhas, não tem visitas pra ver a nova mamãe, nem gente se oferecendo pra pegar a criança no colo, ninguém pergunta se existe depressão pós-adoção. É um pouco cruel com os novos pais essa falta de empatia, como se o adotivo, que já está pelo mundo, não fosse mais novidade, ou como se o casal estivesse fazendo algo trivial.
Com filhos adotivos também nascem pais que precisam de suporte afetivo. Com esses pais nascem crianças que talvez pela primeira vez na vida sejam filhos de alguém, e que podem precisar do carinho de amigos e família mais do que quem chega pelas vias convencionais da vida.
Este pode ser só um desabafo com um pouco de falta, sim, mas também é a vontade de pedir para quem ler este texto até aqui, que consiga fazer um movimento diferente na próxima vez que um amigo ou amiga disser que se tornou pai ou mãe de uma criança adotada.
#papaipresente
PS: isto não é uma generalização, existem pessoas empáticas que trouxeram roupinhas 🙂

Recuperação

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É o primeiro ano de provas do Cadu na escola. Tem que atingir a média, estudar, revisar, fazer temas, pesquisar, e ficar brabo quando a boa nota não vem. Pior ainda é entrar em recuperação, ficar triste, nervoso e apreensivo com as datas das novas provas, calculando quanto tem que tirar, pensando quantas respostas tem que acertar.

Pois é, este sou eu 😄

Fico querendo me envolver em tudo e sofro talvez mais do que o próprio Cadu. Reflito neste momento sobre como relaxar e deixar as coisas fluirem naturalmente, sabendo que ele deu o seu melhor e que vai dar conta, me permitindo apenas ser pai e incentivar o estudo, mas ao mesmo tempo estimulando ele a acreditar que é capaz de dar conta dos desafios.

Por aqui tento fechar o portal do aluno e me focar no trabalho. Ele em casa foca nos estudos. Vai lá garoto.

#papaipresente

Amores imperfeitos (versão 2018)

amoresimperfeitos

Por Arno Duarte

Éramos dois. Ela, uma mulher gata, madura, segura de si, teimosa, mas carinhosa. Eu, um cara normal, bonito talvez, inseguro, cheio de manias, mas com boas intenções. Um amor imperfeito.

E mesmo não sendo perfeito, escolhemos ser pai e mãe do Cadu e da Vitória, pois pais e mães foram feitos para errar, para serem ultrapassados, para ficarem com vergonha deles na entrada da escola.

Não contentes, queremos mudar a ordem natural das coisas, fazer tudo correto, ter a resposta certa, atender no prazo, superar as expectativas, correr contra o relógio, ser o melhor pai e mãe do mundo e ainda continuar os mesmos namorados de antigamente. Mas nada será como antes.

Quando já não somos só dois, nem só três, a vida de amantes precisa ser reaprendida: os dias, as noites, as madrugadas, o trabalho, as folgas, as férias. Tem sempre um ponto de interrogação na frase. Às vezes umas três exclamações, mas nunca um ponto final (trocamos por ponto e vírgula).

As contas aumentam, as horas de sono diminuem, e a correria para médico, escola, tema, mamadeira, fralda, futsal, mochila, merenda, soninho, almoço, janta, lanchinho e atenção 24×7 consomem as baterias da gente.

Os pequenos sonhos de onze e um ano e meio nos desafiam a lembrar de viver sempre no amor – talvez não mais tão romântico como o de antigamente -, mas num amor novo, de discussões, de parceria, de pegar junto, de descansar juntos, de chorar e sorrir da loucura que a vida a dois, três e quatro se transformou.

Nosso amor imperfeito segue evoluindo, conscientes de que a única certeza é que o amanhã sempre chegará cheio de novidades, e que para permanecermos nos amando vamos precisar nos transformar todos os dias, aceitando nossos defeitos e limites, sendo apenas humanos.

Somos e sempre seremos nós mesmos.
Apaixonadamente imperfeitos.


O texto original “Amores imperfeitos” é de 22 de março de 2016 e precisou ser atualizado em função das novas aventuras do casal 😉

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach, consultor organizacional e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

Gestação expressa

bebezinho

Por Arno Duarte

Telefone toca e é um número privado. Estou trabalhando, atucanado, correria, mas atendo.

– “Alou, aqui é do juizado. Vocês ainda têm interesse na adoção”? – pergunta a voz do outro lado.

Pausa, frio na barriga, arrepio, tontura, fico atônito e a vida passa diante dos meus olhos. Segundos parecem horas e lembro que preciso voltar a respirar.

– “Sim, sim, claro. Faz cinco anos que estamos esperando! E agora o que fazemos”? – pergunto num susto.

– “É só aguardar mais um pouquinho, a tarde eu ligo de volta” – responde a voz em tom de suspense.

E a tarde leva anos para chegar, tanto que ligamos de volta para saber mais detalhes. Eu fiquei tão pasmo que não perguntei nada na primeira ligação. Qual a idade? É menino ou menina? Quando podemos pegar ela ou ele? Qual o nome?

– “Falamos na quinta-feira então” – diz com calma a assistente social.

Só ela parece calma, pois nós estamos ansiosos. Serão dois dias a mais esperando. Se horas são anos, dias são eras inteiras!

Na quinta soubemos que era menina, de 1 ano e 2 meses e que em três semanas poderíamos fazer a adaptação, ainda na casa lar, com visitas diárias de uma hora e pouquinho, para nos conhecermos, dar aquele cheiro, pegar no colo e afofar.

Também podemos começar a comprar as “coisinhas” necessárias para receber um bebê em casa. Entenda-se por coisinhas apenas e nada menos do que tudo: fraldas, chupeta, berço, roupas, mamadeira, brinquedos, lenços umedecidos, cadeira do papá, cadeira para o carro, carrinho de passeio, sapatos, arrumar um quarto e mais fraldas. Dava para adicionar à lista um carro maior e uma casa com três quartos e pátio, mas isso terá que esperar.

GESTAÇÃO BIOLÓGICA X GESTAÇÃO ADOTIVA

Os cinco anos que aguardamos na fila da adoção dá pra comparar com o tempo que um casal leva tentando engravidar. Tempo carregado de ansiedade, espera, tentativas, resignação com a espera e finalmente realização!

Já o dia em que me ligaram do juizado é como o dia em que o casal desconfia que engravidou. Aquele quando a menstruação atrasa. A gente quase não acredita, mas dá um pavor misturado com alegria.

O dia em que conversamos com a assistente social é igual ao dia em que o casal faz o teste de gravidez e vai ao médico entender melhor a situação. Agora já era. Virou realidade o sonho!

E finalmente, as três semanas comprando coisinhas para receber o bebê são os nove meses de gestação, tempo que o casal que tem um filho biológico tem para se preparar.

Nós tivemos só três semanas! Adicione nesse caldeirão todas as questões emocionais envolvidas, preparação psicológica do pai, da mãe, do irmão mais velho, dos avós e até do cachorro. Sim, pois é uma mudança de impacto na vida de todos e que precisa ser processada rapidamente!

E tem o dia em que a bebê vem para casa de vez. Assim como uma recém-saída da maternidade, esta vem da casa lar. A mudança também acontece para ela, que precisa se sentir acolhida no novo ambiente. Como o bebê que troca o quentinho da placenta e deixa de ouvir os batimentos do coração da mãe, nossa bebê precisa se acostumar com novos cheiros, novos sabores, um novo espaço pra se movimentar e começar a expandir seu corpo e sua alma.

A partir daí, a vida em família segue sua evolução biológica. Abraços, beijos, carinhos, brincadeiras, choros, birras, manhas. Tudo regado com o amor de pais muito apaixonados, agora multiplicando tudo por dois: Cadu e Vitória <3.

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

Quem são os pais dos filhos da sociedade?

pai-e-filho

/// Uma reflexão sobre o papel social de pessoas e organizações em relação às crianças e adolescentes. \\\

Por Arno Duarte

Eu fico impressionado com as histórias de super-heróis, pois todos têm problemas de alguma ordem com os pais: Batman: teve os pais assassinados; Flash: teve a mãe assassinada e o pai preso; Homem Aranha: pais morreram num acidente de avião; Mulher Maravilha: não conheceu o pai; Super Homem: os pais morreram na explosão de um planeta.

Interessante é que todos foram acolhidos por pessoas que transmitiram valores e os ajudaram a se tornarem referências positivas para seus mundos: Mordomo Alfred; Detetive Joe West; Tia May; Comunidade das Amazonas; Martha e Jonathan Kent.

Mas as histórias de alguns super-heróis nem sempre são como nos quadrinhos.

Existem caras como o João, que pode ser um personagem fictício, ou também poderia ser real. Ele está com 18 anos, se reveza a dormir na casa de amigos, pois recém deixou a instituição de acolhimento onde morou desde os sete anos.

Ele já foi um bebê fofinho, mas quando chegou ao abrigo já havia passado da idade preferida pelos pretendentes à adoção, e lá ficou mais de dez anos.

Assim como os outros super-heróis, ele não teve os pais biológicos presentes. Não sabe o que aconteceu. Lembra apenas de passar por várias casas e de nunca entender o que era o vazio que sentia por dentro.

Um vazio que foi preenchido por sentimentos confusos, amizades duvidosas, por aventuras em busca de dinheiro rápido e fugas da realidade. Era como conseguia suportar o abandono e a ausência de sentido na vida. Era como conseguia sobreviver um dia de cada vez.

E pelo caminho ele encontrou a Clara e o Carlos, empresários, que também poderiam ser executivos bem-sucedidos de alguma empresa, ou apenas um casal de namorados que estavam cuidando das suas próprias vidas.

O João abordou eles em uma sinaleira, bateu no vidro, assustando o casal dentro do carro. O João só precisava de um dinheiro para passar a semana, ajuda para comprar alguma comida.

Nos pensamentos de Clara e Carlos, além de passarem suas vidas inteiras num milésimo de segundo, eles se perguntam: “de onde saiu este cara?”

Pois este cara e outros tantos vem de uma situação de abandono, não apenas dos pais biológicos, mas da sociedade em geral.

Qual a nossa responsabilidade enquanto sociedade em relação as crianças e jovens que vivem em casas de acolhimento ou que cumprem medidas socioeducativas?

Quando nós, sociedade, delegamos a responsabilidade para o poder público e ONGs cuidarem de crianças e jovens em situação de abandono ou que cometeram delitos, somos como aquele pai que paga a pensão em dia, mas desconsidera que o que mais importa no desenvolvimento dos filhos é a transmissão de valores.

Assim como pais que trabalham demais e delegam a criação dos filhos para uma babá, estamos fazendo o mesmo com as crianças das casas de acolhimento. Seguimos nossas vidas trabalhando bastante e deixamos para o poder público dar casa e comida, e esquecemos que amor e carinho não se compra com trabalho.

Crianças e jovens que vivem no sistema de acolhimento institucional ou socioeducativo não precisam só do dinheiro dos nossos impostos. Elas também precisam saber que a vida delas é importante, para só assim darem valor às vidas delas e as dos outros.

Lembra que de alguma forma eles já foram abandonados ou maltratados. Por algum motivo eles acham que não foram importantes para alguém, e isso causa uma dor sem comparação, coisa que talvez a gente não consiga perceber.

E quando deixamos de nos envolver emocionalmente com este mundo, estamos semeando também um futuro em que a emoção não é um valor. O dinheiro é o valor que transmitimos. É esse o valor que queremos transmitir?

Além de desigualdade social, estamos gerando desigualdade emocional.

Muitos falam sobre como vamos mudar o mundo, no futuro, e como seria se pudéssemos voltar no tempo para mudar a história do João?

Numa linha do tempo alternativa o João completou 18 anos. Ele foi abandonado aos sete anos, mas neste novo futuro, poder público, ONGs, pessoas físicas e pessoas jurídicas estão engajadas e se apoiam mutuamente para ser a diferença na vida de criança como o João.

A principal evolução, nessa nova linha do tempo, está na compreensão do papel social que cada um tem na construção de um futuro acolhedor para todos.

Pessoas físicas e pessoas jurídicas entenderam que precisavam ter um papel social mais ativo. Papel social é o envolvimento das pessoas com as pessoas. É o envolvimento emocional, a transmissão de valores.

As doações seguem sendo importantes para manter as instituições de acolhimento e de formação socioeducativa, mas o envolvimento humano precisou evoluir.

E nesse novo futuro o João foi muitas vezes acolhido e ouvido por funcionários de empresas que os liberavam algumas horas por semana para a prática de trabalho voluntário nas instituições.

Depois de algum tempo o João entrou em um programa de apadrinhamento afetivo, onde conheceu padrinhos muito legais que o aconselharam em diversos momentos de sua vida.

O João também foi adotado por uma família muito simples, mas que tinha muito amor para oferecer, mesmo para uma criança mais “velha”, que já não era um bebê.

Aos poucos João foi se aproximando do mundo do trabalho, participou de um programa de aprendizagem, fortemente apoiado por empresas, e o melhor: recebeu orientação de profissionais destas empresas sobre as profissões e como poderia construir um futuro brilhante. A aprendizagem para estas empresas era muito mais do que cumprir a cota exigida pela lei.

Por fim, foi contratado pela empresa da Clara e do Carlos, que como empresários que entendem seu papel social, tem um programa de contratação e desenvolvimento de jovens SEM EXPERIÊNCIA vindos da aprendizagem.

A Clara e o Carlos sabem que estão contribuindo para a construção de um futuro melhor, não só para os jovens, mas para eles mesmos! A Clara e o Carlos também ajudaram a mudar os seus próprios futuros.

E a pergunta que eu quero deixar com toda essa história é: qual o teu papel social em relação aos filhos da sociedade?

O tempo para as mudanças é hoje. O futuro será consequência.

NÓS SOMOS OS SUPER HERÓIS QUE PODEM MUDAR O MUNDO AGORA. Temos muitos poderes de transformação, basta colocar eles em prática pensando no futuro que queremos.

(Texto de Arno Duarte, da talk no evento “Como Podemos Mudar o Mundo Juntos”, em 04/10/2017)

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

#CPMMJ #papaipresente #paipresente #adoção #adoçãotardia #adocaotardia #adocao

O outro

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Por Arno Duarte

Confesso, muita coisa aconteceu dentro de mim nos meus primeiros meses de paternidade adotiva. Por instinto, posso dizer, me tornei protetor e cuidador de uma pessoinha que passou a ser parte de mim. Somos um, somos nós, é mais vida na minha vida. E nisso também surgiram sentimentos dos quais eu não me orgulho muito.

A expressão “pai é quem cria”, você já deve ter ouvido, implica na existência de um outro pai, seja ele conhecido ou não – e isso é irrelevante, mas na minha cabeça havia sim um fantasma presente.

Eu sentia ciúmes de uma figura inexistente: “pô, eu estou criando ele, eu sou o pai”. Alimentei uma competição interna com o fantasma que só eu via, e ao invés de curar o sentimento, comecei a criar questionamentos em função de crenças que precisei revisitar.

Não quero ser o pai que cria, quero ser “o” pai.

Quem é o outro? Ele ou eu? Preciso ser melhor ou ser apenas eu? Quem eu quero ser? Tantas perguntas, nenhuma certeza. Uma dualidade invadia meus pensamentos constantemente.

Sorte que o tempo e a experiência me ajudaram compreender que eu nunca poderei ser o único pai do meu filho, e que isso também não significa que eu sou o outro.

Percebo hoje o quanto sou babão, repetindo para todo mundo “meu filho isso, meu filho aquilo”, orgulhoso, chato por vezes, fazendo de tudo pra estar sempre presente. Desculpe! É que me sinto completo e inspirado por aquele pequeno ser que me fornece pitadas de carinho diariamente. É impossível ser mais pai do que isso.

Não preciso competir com ninguém, seja de carne e osso, uma imagem, lembrança ou um ectoplasma.

Passei a valorizar mais a expressão “pai é quem ama”, pois, criar sem amor não acolhe nenhum sentido à paternidade.

E amar é fazer de tudo pra estar sempre presente, abraçar, dar bronca, brincar, estudar o tema junto, botar pra dormir, ouvir as pequenas histórias de descobertas e acompanhar o crescimento dele.

Tudo o que eu faço é tentar ser a melhor referência possível de pai, sendo apenas eu mesmo, independente de biologia ou carteira de identidade. A certidão definitiva de paternidade está registrada no cartório do coração, com carimbos de lembranças muito amorosas.

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

Dia de Cura (ou Dia dos Pais)

pai-e-filho

Por Arno Duarte

O segundo domingo de agosto ainda é novidade pra mim, não por eu ser pai há menos de dois anos, mas por, sendo filho há mais de 40, seguir tendo muito o que entender sobre essa relação “cármica”.

Eu amo ser pai. Amo meu filho. Aprendo diariamente com ele, muito mais do que eu ensino. Presunção minha achar que sou o cara com conhecimento, pois o que de melhor posso lhe passar são apenas valores. E por isso chego ao ponto do artigo.

Antes de sermos pais, somos filhos. A data que se aproxima é o melhor momento para refletirmos sobre como víamos e vemos nossos pais, revisarmos os julgamentos que fazíamos quando crianças e que fazemos enquanto adultos, para assim termos a chance de reafirmar o respeito e honrar a nossa origem.

Sou o que sou por tudo que recebi do cara que me criou, que esteve sempre presente mesmo na ausência, enquanto buscava garantir meu sustento com o seu trabalho e estudo, que acertou muitas vezes e errou tantas outras, mas que em todas as situações colocou a melhor intenção possível, querendo que eu me tornasse uma boa pessoa.

Hoje, com maior consciência sobre vida, consigo perceber que eu achava muita coisa sem ter referência alguma, sem saber das dificuldades, das pressões do mundo ou das expectativas e frustrações dele. Eu não conhecia uma coisa chamada realidade.

Agora com meus 40 anos de idade, ainda preciso parar e olhar pra meu pai como uma pessoa, que como eu, sofre com ansiedades, medos, orgulho, vergonha, é passível de tristeza e dor. Pais não são super heróis, pois são gente como a gente, de carne e osso. Quem cuida de quem cuida?

Por isso eu digo que o Dia dos Pais também é um dia de cura, de perdão, de começar de novo se for preciso, de cuidar. É dia de olhar pra frente, com a certeza de que dentro de ti e dentro dele, além do mesmo DNA, tem o sentimento de amor, que pode estar escondidinho num cantinho do coração, mas que talvez só precise de um abraço pra transbordar em lágrimas.

“você culpa seus pais por tudo
isso é um absurdo
são crianças como você
o que você vai ser
quando você crescer”
– Pais e Filhos, Legião Urbana

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.